Empréstimos · 9 min de leitura

Por que a taxa do empréstimo muda tanto entre bancos, e como ler a lista do Banco Central

A taxa que o Banco Central publica por banco é a média das operações contratadas, não uma tabela de preço. Por que a mediana situa e a menor engana.

Por Redação GorejoAtualizado em
Fachada envidraçada de um edifício bancário
Foto: anurag upadhyay/Pexels

Num exemplo com 24 parcelas de R$ 600,00, trocar uma taxa de 2,5% ao mês por uma de 1,8% ao mês economiza R$ 1.089,95. As duas são taxas de empréstimo pessoal, a mesma modalidade, no mesmo mês. A distância existe porque cada instituição forma o próprio preço, e o Banco Central publica a taxa média de todas elas em dados abertos. A lista inteira está em taxas de empréstimo pessoal por banco. Ela é útil e é fácil de ler errado: a menor taxa da tabela quase nunca é uma oferta que você consegue.

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O número publicado é a média do que foi contratado

A lista do Banco Central não é uma tabela de preços. Cada instituição informa as operações de crédito que fechou. O Banco Central calcula, para cada instituição e cada modalidade, a taxa média ponderada das operações contratadas em cinco dias úteis, e divulga o resultado algumas semanas depois. Quando você abre a página, está olhando o preço médio de contratos já assinados.

Três consequências mudam a forma de ler a lista.

A primeira: a média junta clientes diferentes. Na mesma linha entram contratos de quem tem renda comprovada e histórico limpo e contratos de quem tem restrição. Entram prazos curtos e longos, valores pequenos e grandes. A taxa da linha é o meio disso tudo. A sua taxa sai da análise do seu contrato, e costuma ficar acima da média publicada. O motivo tem artigo próprio: por que a taxa que te ofereceram é maior que a anunciada.

A segunda: o dado é do passado. Cada página de taxa mostra o período a que o número se refere e a fonte. O índice com todas as modalidades está em taxas por banco, e as hipóteses do cálculo estão em como calculamos. Se o Banco Central não divulgar um período novo, a página continua mostrando o último, com a data visível.

A terceira: instituição que não fez operação naquela modalidade no período não aparece. A tabela muda de tamanho e de composição de um período para o outro. Um banco que sumiu do ranking não ficou mais caro nem mais barato. Ele não teve contrato contado ali.

O que faz uma instituição cobrar mais que a outra

O preço do crédito é montado por instituição. Quatro peças entram na conta de cada uma.

  • Custo de captação: quanto a instituição paga para ter o dinheiro que empresta.
  • Risco da carteira: a inadimplência esperada naquele conjunto de clientes. Quem empresta para um público de risco maior precisa de taxa maior para cobrir a perda.
  • Garantia: crédito com desconto em folha tem risco menor que crédito sem garantia nenhuma.
  • Custo de operar: aprovar crédito por aplicativo custa diferente de aprovar em agência.

A garantia é a peça que mais separa uma modalidade da outra. O rotativo do cartão não tem garantia nem prazo definido, e fica numa faixa muito acima da do empréstimo pessoal. Abra taxas do rotativo por banco ao lado da lista da abertura: a diferença de patamar aparece já na primeira linha de cada uma.

Dentro de uma mesma modalidade, as quatro peças continuam diferentes entre instituições. Por isso a lista se espalha em vez de convergir. E a distância entre duas linhas custa dinheiro.

Num exemplo com 24 parcelas de R$ 600,00 restantes, a 2,5% ao mês, o saldo devedor é R$ 10.730,99, o valor presente das parcelas que faltam (Resolução CMN 3.516/2007). Continuar até o fim custa R$ 14.400,00. O mesmo saldo, nas mesmas 24 parcelas, a 1,8% ao mês, dá parcela de R$ 554,59. As duas taxas são hipotéticas, escolhidas para a demonstração.

Taxa mais alta do exemploTaxa mais baixa do exemplo
Taxa do exemplo2,5% ao mês1,8% ao mês
Saldo devedorR$ 10.730,99R$ 10.730,99
Parcelas restantes2424
ParcelaR$ 600,00R$ 554,59
Total a pagarR$ 14.400,00R$ 13.310,05

A diferença entre as colunas é R$ 1.089,95, com o mesmo saldo e o mesmo prazo. O que mudou foi 0,7 ponto percentual ao mês, a distância entre duas linhas de uma lista. A ferramenta portabilidade de crédito, quanto economizo refaz essa conta com o seu saldo e com a taxa da proposta que você receber.

Por que a ferramenta abre na mediana, e não na média

Aberta a lista, a tentação é somar todas as taxas e dividir pelo número de instituições. A média simples não resiste a uma linha fora da curva.

A tabela abaixo é uma lista inventada, com seis instituições, só para a conta. As taxas não são de ninguém.

Instituição do exemploTaxa do exemplo, ao mêsO que a linha é
10,75%menor taxa da lista
21,95%quartil mais baixo
32,35%
42,65%
53,25%
69,75%maior taxa da lista

A média simples dessas seis taxas é 3,45% ao mês: some 20,70 e divida por seis. Ela fica acima de cinco das seis instituições, puxada pelos 9,75% da última linha. A mediana é o valor do meio da lista ordenada. Com seis linhas, é a média entre a terceira e a quarta: 2,50% ao mês. Metade das instituições cobra menos que isso, metade cobra mais.

Por isso as ferramentas da Gorejo abrem preenchidas com a mediana. Parcelar a fatura ou pegar empréstimo usa a mediana de duas modalidades, uma em cada lado da comparação, e refaz o custo total quando você digita as taxas da sua proposta. A ferramenta de portabilidade usa a mediana como taxa do contrato atual e o quartil mais baixo como taxa proposta, a taxa que separa o quarto mais barato da lista. Na tabela de exemplo, são os 1,95% da instituição 2. O critério está aberto em como calculamos.

O quartil mais baixo representa uma oferta boa e ainda plausível. Nenhum dos dois números é a sua taxa. Os dois servem para a conta não começar do zero.

Por que a menor taxa da lista é a pior referência

A primeira linha do ranking é a mais atraente e a menos útil.

Ela é uma média como as outras, com uma diferença: costuma vir de um conjunto pequeno de operações. Uma média sobre poucos contratos se move muito. Basta um contrato grande e barato dentro dos cinco dias apurados para uma instituição aparecer no topo. No período seguinte, sem aquele contrato, ela volta para o meio da tabela. Média sobre muitos contratos quase não se mexe.

Some a isso o que a média não mostra. A ponta de baixo pode ser um produto para um público específico, uma carteira de nicho ou uma linha com garantia que o resto da modalidade não tem. O ranking ordena preço. Ele não ordena tamanho, e não diz para quem aquele preço estava disponível.

Na lista de exemplo, a primeira linha marca 0,75% ao mês e a mediana marca 2,50%. Começar a conta pelos 0,75% cria uma expectativa que a proposta real não alcança. A ponta de cima tem o mesmo problema: os 9,75% da instituição 6 dizem tanto sobre o mercado quanto os 0,75%. As duas pontas são casos isolados. O meio é o retrato.

O que a lei obriga, e o que o dado público não substitui

A lista do Banco Central é dado público. A sua taxa é dado do seu contrato, e é o banco que precisa informá-la.

Pelo art. 54-B do Código de Defesa do Consumidor, incluído pela Lei 14.181/2021, a oferta de crédito, publicitária ou não, deve informar o custo efetivo total (CET), a taxa efetiva mensal e a anual, os encargos de mora, o total de encargos, o montante e o número das prestações, a soma total a pagar e o direito à liquidação antecipada com redução proporcional dos juros. O art. 52 do CDC, mais antigo, já exigia na venda a crédito o preço à vista, os juros, os acréscimos, o número e a periodicidade das prestações e a soma total.

A obrigação de informar o CET antes da contratação também está na regulamentação do Conselho Monetário Nacional (Resolução CMN 4.881/2020). O que o CET acrescenta à taxa de juros está em como a taxa mensal vira custo anual. O que exigir quando a proposta chega incompleta está em o que o banco é obrigado a informar.

O art. 54-C do CDC proíbe a oferta que indique conclusão sem consulta a serviços de proteção ao crédito ou sem avaliação da situação financeira. Taxa baixa anunciada junto com essa promessa descumpre o CDC.

Se você já tem contrato e quer levá-lo para uma instituição mais barata da lista, a portabilidade é um direito previsto na Resolução CMN 4.292/2013, e o banco atual não pode cobrar tarifa por ela.

O que fazer com a lista aberta na tela

  • Confira a modalidade. Empréstimo pessoal, consignado, cheque especial e rotativo são listas separadas, com patamares diferentes. Comparar linhas de listas diferentes não diz nada.
  • Olhe o período no topo da página antes de olhar a taxa. O dado é de um intervalo fechado, não do dia de hoje.
  • Procure o seu banco na lista e veja a posição dele. É essa informação que muda a sua conversa com o gerente, não a primeira linha da tabela.
  • Use a mediana como valor inicial na ferramenta. Depois troque pelo número da proposta que você receber.
  • Peça a proposta por escrito, com a taxa mensal, a taxa anual e o CET. A média publicada não substitui esse documento.
  • Se a taxa oferecida ficar muito acima da média publicada do próprio banco, pergunte o motivo e peça proposta a outra instituição.

No exemplo, 0,7 ponto percentual ao mês virou R$ 1.089,95 em 24 parcelas. Com a sua taxa, o seu saldo e o seu prazo, o resultado é outro. Esse é o único número que decide alguma coisa.

Conteúdo educativo. Não é recomendação individual nem oferta de crédito. Os números do seu contrato podem ser diferentes dos exemplos.

Perguntas frequentes

por que cada banco cobra uma taxa de juros diferente?
Porque cada instituição forma o próprio preço, a partir do custo de captação, do risco da carteira de clientes, da existência ou não de garantia e do custo de operar. O Banco Central publica a taxa média de cada uma, por modalidade, em dados abertos, e a lista se espalha por causa dessas diferenças.
a taxa que o Banco Central publica é a que o banco vai me cobrar?
Não. É a média ponderada das operações que aquela instituição contratou num período de cinco dias úteis, divulgada algumas semanas depois. A sua taxa sai da análise do seu contrato, e o banco é obrigado a informá-la junto com o custo efetivo total (CDC, art. 54-B).
é melhor olhar a média ou a mediana das taxas dos bancos?
A mediana. Ela é o valor do meio da lista ordenada: metade das instituições cobra menos, metade cobra mais. Numa lista de exemplo com seis taxas, de 0,75% a 9,75% ao mês, a média simples dá 3,45% e a mediana dá 2,50%.
posso usar a menor taxa da lista do Banco Central como referência?
É a pior referência da tabela. A menor taxa é uma média como as outras e costuma vir de poucas operações ou de um produto de condição específica, então muda de posição de um período para o outro. O quartil mais baixo situa melhor uma oferta boa e realista.
quanto vale uma diferença de 0,7 ponto percentual ao mês na taxa?
Depende do saldo e do prazo. Num exemplo com 24 parcelas de R$ 600,00 restantes, trocar 2,5% ao mês por 1,8% ao mês leva a parcela para R$ 554,59 e o total de R$ 14.400,00 para R$ 13.310,05, uma diferença de R$ 1.089,95.